Cure - Kiyoshi Kurosawa

sábado, agosto 20, 2011

Quando resolvi assistir Cure estava esperando um filme de terror no mínimo sobrenatural, já que não tenho o costume de ler sinopses. Assisti de maneira desavisada, fazendo milhares de coisas ao mesmo tempo, não esperando um filme complexo e tão bem planejado. Logo, tive que assisti-lo pela segunda vez. Me deparei com um thriller policial mesclado com horror psicológico que me deixou no mínimo encafifada ao terminar de ver. Dessa vez vou fazer uma resenha explicitando alguns pontos que pra mim foram essenciais, logo esse texto conterá spoilers (se está disposto a ver o filme, o que eu veementemente recomendo, não leia).

Sinopse:
Cure está centrado numa série de assassinatos cujas vitimas possuem um X brutalmente cortado na altura do pescoço até o tórax. Uma característica interessante em cada um dos eventos é que o assassino é encontrado perto ou até mesmo na cena do crime, admitindo ter cometido o crime, mas não sabendo explicar o que o levou a cometê-lo, e essas são as únicas relações que podem ser estabelecidas inicialmente entre eles. O detetive Takabe torna-se responsável pela investigação; consagrado em sua profissão porém  marido de uma mulher psicologicamente perturbada que se torna um fardo em sua vida. Em busca de uma explicação para os acontecimentos, o detetive chega até um Mamiya, um homem sombrio e misterioso, que inclusive sofre de amnésia. Ele será a chave para ligar todos os casos.






Inicialmente temos uma investigação policial apenas. Takabe, até mesmo por certa experiência e pesquisa em textos e livros psiquiátricos (por causa de sua mulher) começa a apostar na possibilidade de os assassinatos estarem acontecendo por meio de hipnose, e é aí que Mamiya entra. Descobre-se que o homem da amnésia estava presente nas cenas dos crimes e que provavelmente era ele quem induzia as vítimas. Mas isso é apenas o óbvio, temos essa ideia claramente apresentada, o que é mais importante está além disso.

Essa é apenas a minha interpretação dos fatos e um exercício de organizar minhas idéias sobre o filme por escrito. A minha primeira dúvida era: "Como ele induz suas vítimas". Cheguei a conclusão de que o método não era o mais importante nesse filme, até porque somos apresentados à Mesmer e seu Mesmerismo (ou magnetismo animal) na fase de "pesquisa" do filme, mas nada é explicado profundamente. Tecnicamente Mesmer define o magnetismo animal como sendo a capacidade de um individuo em causar efeitos similares aos do magnetismo mineral em outras pessoas, utilizando água, garrafas ou barras de ferro. Em analogia a essas técnicas encontramos no filme elementos como água (na cena da médica) ou o esqueiro.

Ao assistir o filme pela primeira vez, tinha a convicção de que Mamiya estava mentindo. Pra mim ele não tinha amnésia, estava fingindo e tentando envolver Takabe ainda mais fundo em dúvidas. Mas da segunda vez percebi que Mamiya é um personagem vulnerável. A segunda característica que me peguei refletindo era de como o vilão dessa obra se difere dos demais. Ele não só sofria de amnésia como não conseguia se proteger por causa dela, ao contrário, ele deixava pistas por onde ia e não conseguia tomar decisões lógicas para evitar que fosse pego. Por outro lado isso o resguardava até certo ponto, já que os interrogatórios normalmente nunca se concluíam.

Meu terceiro questionamento era: "Que palavras ele usava ao induzir suas vítimas". Pra mim parece uma espécie de ritual; fica claro que ao perguntar "Quem é você" ou "Me fale mais sobre você" era o início da sua hipnose. No decorrer do filme temos cada vez mais acesso às cenas dos crimes. No início só víamos o assassino e sua vítima. Depois tomamos conhecimento de uma terceira pessoa no local. Por fim tomamos conhecimento da relação que essa terceira pessoa passa a ter com aquele que pratica o assassinato Me pareceu, à primeira vista que Mamiya simplesmente tem acesso aos pensamentos da Doutora, por exemplo, e isso encheu minha cabeça com idéias sobrenaturais. Mas pensando com mais calma, percebi que ele não sabia mais do que ela deixava transparecer. Acredito que nenhuma cena ou diálogo está lá a toa. E a cena do primeiro paciente da médica é um exemplo. A partir dela percebemos que o problema que ela enfrenta está visível a todos que olharem pra ela. Seus pacientes não a veem como médica, só como mulher. Mamiya não tem acesso aos seus pensamentos, simplesmente diz a ela o que todos já sabem, inclusive ela mesma: o sua infelicidade e "fracasso" por causa do preconceito por ser mulher numa profissão dominada pelos homens. Através do mesmerismo ele a induz, conduz sua raiva ou frustração ao assassinato. Nesse momento me vejo curiosa a cerca dos diálogos que ele manteve com os personagens anteriores, já que isso não aparece no filme.

Por fim, e acho que o questionamento mais importante do filme, é a relação que Takabe e Mamiya criam entre si. Aparentemente Takabe é imune aos métodes do vilão, que o acha surpreendente e assustador. Muitas vezes diz ao detetive que ambos eram especiais. Temos o confronto entre dois personagens antagônicos. Um possui duas personas, o de detetive, profissional e frio, e o de marido, aquele que cuida de sua esposa doente. O outro não possui nenhuma, nem história (não que tenhamos conhecimento pelo menos).

O que motiva o filme e dá o toque agonizante da história não são os assassinatos ou a investigação policial, mas a tensão que passa a existir entre Takabe e Mamiya. Relação essa que abre diversas perguntas e conclusões. Uma das cenas mais interessantes que nos ajuda a chegar a uma conclusão é a que o psicólogo forense, também amigo de Takabe, diz que a hipnose não modifica os conceitos elementares de moral, ou seja, ninguém poderia ser induzido a matar caso considerasse que matar é errado. Kurosawa nos apresenta uma história em que personalidades monstruosas que temos dentro de cada um de nós é ocultada por máscaras e regras sociais. A cura é proposta e experimentada pelos personagens e levam a resultados impressionantes como pudemos ver ao longo da trama.

Um filme recomendadíssimo e que merece ser visto mais de uma vez, tenho certeza que ao vê-lo mais atentamente poderemos encontrar ainda mais detalhes e receber as informações com outros olhos.


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5 comments

  1. Nossa...eu não imaginava que o filme fosse assim!
    Filmes orientais são bem complexos,heim!
    A gente fica só acostumado a ver Jackie Chan e Jet Li e quando vê algo assim o cérebro dá até curto ahuauhuhahu

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  2. hauahahua é verdade XD As vezes é bom ver um filme tranquilo de entender, pra relaxar, mas tem hora que eu gosto de pensar um pouco mais XD

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  3. Não assisti, por isso li só o primeiro parágrafo! ^^
    Fiquei curiosa agora! Vou procurá-lo por aí!!!! *____*
    Obrigada pela dica! E hoje o botão de seguidores funcionou!! Beijos! =***

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  4. Ahh espero que goste >< Se não gostar.... não me bata XD huahauhua Beijos :*

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  5. Bom saber que não sou o único a pensar assim sobre esse filme.

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